Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Ver “Lopes” e projectar o cinema

Fui à cinemateca ver a estreia do documentário dos Lopes.

De aperitivo uma elegia do Mestre Fernando numa combustão cinematográfica que revolve o grão da emoção nas labaredas de memória. Tudo aquilo me emocionou de forma estranhamente familiar fosse pela proximidade às imagens ícone do nosso cinema

 

ou por ter feito parte da família que elevou a poesia em pleno São Carlos. O fogo apaga-se no topo da sala, trocam-se as fitas e acende em mim uma e outra questão: serão eternas as imagens que admiro? Que eternidades estas? A nossa memória perdurará? Serei eterno face às imagens que admiro? E os meus heróis também morrem? Morre o olho que olho mas não o olhar que sobre o olhar nasceu.

 

No fatal destino de tudo o que respira viajo até um livro que me acompanhou num tempo de convalescença: um homem que produz filmes que ninguém viu decide destruir o seu asservo no término da vida. Mas antes decide mostrá-los a alguém que escreva sobre eles. Será esse o nosso único papel em vida, o de deixar um registo sobre o mundo que experimentámos? E não o partilhar com ninguém? Hoje sinto essa necessidade e não fui o único. É que também este filme de Fernando por João Lopes ‘Provavelmente...’ não é para mim mais um filme: é uma admirável homenagem em vida, de quem sente que há que partilhar a obra em vida num marco inteligente sobre um homem sensível que por demais admiro, e que memorizo num tabuleiro do Éden visto dos céus, ou perscutando a intimidade do nosso cinema nos planos que espelham a casa do autor.


O catedrático e mediático João, autor crítico, professor e mestre de todo e qualquer cinéfilo deste país de F's: fado, futebol (antes Fátima) e haja quem ouse dizê-lo também de filmes assume-se agora destino deste Lopes, um São João que até à produção admira no momento dos agradecimentos (e como eu gostava de assim ser reproduzido nessas lides de lavoro...).


O meu professor João prescuta em cada olhar próximo um interior humano, que me marca como a minha imagem matricial do bom cinema à português e ainda com resiliência para mais um combate à chuva e espaço para outro copo de whisky. Mas se me autoriza há nesta admiração uma vénia que persiste de um discípulo que se acha menor, tal como um Mestre Fernando prescrutando o tamanho das pistolas de um Ford Mestre de Westerns. Isso acho errado. Que na arte não há pessoas melhores apenas obras mais marcantes. Sob a arquitectura do panteão do cinema são as estrelas que brilham mais que os obras mas não são elas as estrelas mais brilhantes.


Sugerir um canal que permita dar trabalho aos consagrados? O tempo das classes superiores e inferiores parece-me algo descontinuado mas mesmo que não devamos desprezar que exista gente com e sem classe e obras com e sem valor. A capacidade de superação tem de ser diária e a capacidade de afirmação deverá ser justificada. Se um Fernando Lopes ficar sem realizar os seus projectos obviamente que não fico satisfeito que essa situação deixa-me triste! Mas se isso der lugar a um novo Belarmino então saudemos a vitalidade do cinema português.

 

 


Para mim mais que tudo existem Homens e é deles que se projecta o artista. E se o homem não é eterno também eterna não será a sua capacidade de criação. Daí que aceitar todo e qualquer trabalho maior ou até um rabisco, reconhecendo por uma assinatura uma obra de arte não será para mim o mais correcto. Entraremos nesse caso num mundo de coleccionadores de matéria inerte já que por vezes as palavras mais flamejantes têm autor desprezado.


Não estará na hora de assumir de vez que o subsídio não é o princípio do cinema mas o fim da capacidade de gerar meios de independência? Pensemos então o capitalismo que temos. Há os que têm e os que precisam do que esses têm. Mas encaremos o presente e o futuro: estamos num tempo em que os desejantes têm mais força que o poder do desejo. Porque já não dependem tão completamente dele. Hoje se não fazemos bem com 100000 tentemos fazer melhor com 100. Sejamos humildes artistas mas não dependamos da caridade para expressarmos a nossa arte!


Ponham-se em prática as formas de incentivar o apoio privado às artes e incentive-se a produção e distribuição, impondo-se quotas de qualidade e diversidade de programação às televisões generalistas! E produza-se para o estrangeiro! Tive em mãos a produção de um filme que integrou grandes mostras internacionais mas que não recebeu um tostão de qualquer entidade pública ou privada. Bati a N portas, mas não à do Portas. Fui inábil??!? Dir-me-ás então que fui às erradas. Repito-o com calos nas mãos! Mas quem é que mostra então, quem é que compra, quem é que aposta? O que é o mecenato, o que é a televisão independente? Independentes em quê? Divergem, arriscam, incentivam, alterna quem em quê? Tentemos @ cunha(d@) do Portas? A aventura (artística) segue com costa (comercial) à vista!


Mas se um Indie, um Fantas e um DocLisboa são crescentes sucessos de massas porque não assumir de vez que as massas querem diversidade. Se custa mais? Não, dá é mais trabalho. Custa ser criativo. A Roménia é nisso hoje uma moda. O Irão também um exemplo. Portugal ainda não. Abra-se um sentido de exportação numa porta por onde actualmente apenas entram formatos enlatados. Talvez dê mais trabalho ser continuamente criativo que as fórmulas tendem a esgotar-se. Aprendamos então com o bom, criemos um excelente produto apostando na identidade e sejamos exemplares a vendê-lo. E garantamos a venda seguinte promovendo a imagem com originalidade de qualidade. Ultrapassemos a rezinha ao Fundo perdido e os loops de flops. Respeitemos as glórias dos Carlos e dos Bastos e dos Fernandos Lopes, mas apostemos no surgimento de um Mourinho Oliveira, colhamos Figos em Almodovar, divulguemos os Nanis e os Morettis, e rezemos por Marizas aos montes.


Não querendo continuar a parecer desrespeitoso, até porque o Mestre Fernando partilha no meu panteão o lugar de César com o Monteiro, admito que todos nós teríamos a aprender com a saúde do seu pensamento em documentários, entrevistas, aulas e palestras. E que se invista nisso que é gasto com retorno. Por outro lado a saúde do seu e nosso cinema teria tudo a atingir com a utilização do reconhecimento do estatuto que alguns como ele conquistaram e através dele reunir apoios e abrir portas que nós, os iniciados não conseguimos de outra forma nem ousar imaginar. Mais que lamentar o silêncio de uma voz no megafone saúdo um novo caminho que traga voz a tod@s. Proponho pois que se assuma de vez um canal que emita a partir do panteão dos consagrados mas que não nos venham guiar até à entrada de um labirinto. Entrem nele connosco. Sejam um de nós que à saída seremos uma voz mais forte.

 

 

E nesta minha visão inocente olho as estrelas na noite da cinemateca e insolente sondo se haverá espaço para mais um ponto de luz e constato haver lugar para constelações inteiras se iluminarem. E já que cumprimento mestres como professores deles me despeço "provavelmente... até segunda feira".

 

 

 

K!KE às 05:15
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